Belle and Sebastian no Pitchfork Paris 4

Belle and Sebastian no Pitchfork Paris 4
Tenho Mais Discos Que Amigos

Foto por Hares Datti Pascoal Por Anna Mota

Um ambiente realmente propício a conhecer novos artistas. Para além do line-up formado por nomes como Skepta, Primal Scream e Charli XCX, este é o ponto alto do Pitchfork Festival Paris, onde o TMDQA! esteve entre os dias 31 de outubro e 2 de novembro.

A nona edição europeia do evento ocupou o espaço multicultural Grande Halle de la Villete, em dias marcados por diferentes gêneros musicais, apenas com o “alternativo” em comum — selo que é usado para facilitar a apresentação do festival, ainda que a realidade seja abrangente. Pelos quatro palcos (Petite Halle, Studio, Nef e Grande Halle), passaram artistas que vivem realidades opostas no mundo digital. De um lado, está por exemplo o inovador Nelson Beer, com menos de 2 mil ouvintes mensais no Spotify; de outro, o mais pop que indie The 1975, com 9,1 milhões na mesma plataforma.

Tal diversidade está no cerne da criação de festivais de música, mas é uma característica que se torna cada vez mais rara nos circuitos comerciais e que se destaca no Pitchfork pela curadoria e montagem dos palcos. Os dias de estilos definidos tornaram o público disposto a chegar cedo e explorar palcos menores. E a decisão foi respondida de forma esplêndida pelos artistas que trouxeram inovação, não deixando ninguém ir embora desapontado.
1º dia do Pitchfork Paris — a força da cena instrumental na Europa

The Comet is Coming no Pitchfork Paris

The Comet is Coming no Pitchfork Paris
Tenho Mais Discos Que Amigos

Foto por Hares Datti Pascoal

A quinta-feira teve a programação focada em hip-hop, jazz e soul, e um dos destaques apareceu apenas uma hora após a abertura dos portões, às 18h, no Studio. A estado-unidense Candace Camacho (ou duendita) teletransportou a atmosfera do Queens, bairro em que nasceu e vive em Nova York, para o pequeno anfiteatro do Pitchfork, em uma intimista apresentação para 250 pessoas. Com a ajuda de um baixista e de muitos recursos eletrônicos, ela redefiniu ao vivo qualquer potencial pré-conceito sobre o soul. Com canções do seu primeiro disco, Direct Line to My Creator (2018), explorou os paradoxos entre dor e cura, solidão e coletividade, tornando a identificação entre público e artista uma tarefa mais do que fácil.

Outra surpresa foi o percussionista britânico Yussef Dayes — no festival, uma primeira amostra da atual força da cena instrumental europeia. Às 21h, ele lotou o Petite Halle, bar transformado em palco, que pelo tamanho oferecia uma atmosfera democrática entre plateia e banda. Acompanhado de um baixista e um tecladista, fez um show que se aproximou do que Damien Chazelle quis retratar em Whiplash. Com rápidos movimentos, ele embasbacou a plateia ao desfilar as mais diversas referências, usando o jazz dos anos 1960 como base, e adicionando pitadas de afrobeat, dubstep e até mesmo bossa nova.

Youssef Dayes no Pitchfork Paris

Youssef Dayes no Pitchfork Paris
Tenho Mais Discos Que Amigos

Foto por Hares Datti Pascoal

O instrumental continuou a se provar essencial e contemporâneo na apresentação do trio The Comet is Coming, composto pelo duo Soccer96 e pelo saxofonista Shabaka Hutchings. Com eles, o free jazz se desdobrou em eletrônico, rock e ultrapassou qualquer fronteira pré-estabelecida. O show, que trouxe músicas do mais recente disco, The Afterlife (2019), fez o público transcender em uma experiência psicodélica inesquecível.

E, entre as bandas que passaram pelo palco principal, o instrumental mereceu mais uma vez menção, com o coletivo britânico Ezra Collective. O nome do mais recente disco do grupo, You Can’t Steal My Joy (2019) – “você não pode roubar minha alegria”, em tradução livre – faz jus à apresentação no Pitchfork. O jazz descomplicado do quinteto, repleto de acenos ao afrobeat e ao hip hop fez com que o público se envolvesse e esquecesse dos vocais. Para além dos magníficos solos e da coerência temporal, o show contou ainda com uma homenagem ao Brasil, com a música “São Paulo”, que foi apresentada com um convite para os franceses a aproveitarem como faríamos em solo tupiniquim.

Ezra Collective no Pitchfork Paris 1

Ezra Collective no Pitchfork Paris 1
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Foto por Hares Datti Pascoal