A Antiprisma é uma banda que vem se destacando no cenário indie brasileiro já há alguns anos.

A marcante sonoridade folk da dupla formada por Victor José e Elisa Moreira tem conquistado espaço desde o primeiro EP homônimo da banda, lançado em 2014.

Após isso, o primeiro álbum cheio, Planos Para Esta Encarnação, já mostrou as maiores possibilidades que os dois conseguiam fazer em cima das suas melodias vocais, de seus violões e das intervenções de Victor na viola caipira, tocada de uma maneira muito singular e interessante.

Para 2019, a banda resolveu balançar as suas possibilidades sonoras e trouxe ao longo do ano, quatro singles que, na última sexta-feira (30) se uniram a mais seis outras músicas para formar Hemisférios, o segundo álbum da Antiprisma.

Guitarras, baixo e bateria acompanham Victor e Elisa através de faixas que, mesmo trazendo uma nova abordagem para a proposta da banda, não deixam de mostrar a sua essência e identidade.

Para entendermos melhor os caminhos que fizeram a Antiprisma chegar até Hemisférios, batemos um papo com a banda via e-mail, e essa conversa você pode conferir aqui, logo abaixo do player do álbum:

TMDQA: Primeiramente, gostaria de saber sobre o processo de lançamento de Hemisférios. Antes mesmo de sair o álbum completo, vocês já liberaram quatro singles que viriam a fazer parte dele, por que resolveram mostrar antecipadamente tanto sobre o que seria esse novo trabalho?

Victor: Primeiro porque fazia algum tempo que não lançávamos músicas. Além disso, a gente percebeu essa tendência de enfatizar mais o lance de trabalhar single a single, aí quisemos experimentar essa ideia, já que algumas faixas ficaram prontas um pouco antes. Também tem um pouco do fator da curiosidade, né… a gente queria saber minimamente como essas novas músicas poderiam soar da perspectiva dos outros. Ficamos tanto tempo dentro do projeto que ter soltado essas músicas antes deu certo alívio, sabe? Como a gente já pensava em lançar 11 ou 12 faixas, achamos que seria até que razoável soltar quatro músicas com antecedência, porque quando fosse lançado o álbum cheio ainda assim teria muito material pra escutar.

Elisa: Acho que os singles são faixas que exemplificam bem os novos caminhos e que seguimos no disco, e a cara mais atual do Antiprisma. Os lançamentos serviram para deixarmos a ‘roda girando’ (risos). Acho que conseguimos lançar coisas novas e ainda assim trazer no disco outras novidades sonoras. Além disso, na verdade as faixas que foram lançadas como singles fazem parte de um todo, e podem até ganhar uma percepção diferente dentro do contexto do disco.

TMDQA: Ainda sobre esses singles: ‘Fogo Mais Fogo’, ‘Só Porque Você Não Se Encontrou’, ‘Caos’ e ‘Planície Sem Nome’. Por que essas foram as faixas escolhidas para antecipar o álbum? E de que forma vocês acreditam que elas puderam traduzir a ideia de Hemisférios para quem estava aguardando por ele?

Victor: Pra mim, no disco têm outras faixas que poderiam ter saído antes como single, mas essas quarto de certa forma resumem bem o que tem ali gravado. Acho que percebo nelas os caminhos que acabamos trilhando. Tem um pouco da calmaria e da harmonia como também tem um traço mais agressivo e incisivo.

Elisa: Escolhemos “Só Porque Você Não Se Encontrou” porque percebemos uma boa recepção quando tocávamos nos shows, ainda em dupla. Percebemos que as pessoas prestavam atenção na música em si e na letra, que tem uma mensagem forte. A ‘Planície Sem Nome’ já notamos logo de cara que teria potencial de single, por ter uma melodia mais pop. A ‘Caos’ traria o folk e o acústico, que são elementos importantes da nossa identidade, mas com uma abordagem mais escura, um humor diferente do que já havíamos apresentado antes. E decidimos abrir tudo com a ‘Fogo Mais Fogo’, que imediatamente já trouxe uma vibe que quebraria com a expectativa de um lançamento do Antiprisma acústico, calmo… essa faixa é bem forte e com a participação da Gabi (Gabriela Deptulski, do My Magical Glowing Lens) ficou com uma abordagem mais psicodélica. Achamos um bom marco para iniciar nossa nova fase.

Tenho Mais Discos Que Amigos

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Foto: Elisa Moreira Oieno

TMDQA: Agora sobre o álbum como um todo. Quem acompanha o Antiprisma já sabia que a banda estava acompanhada de mais músicos em suas apresentações, e já dava para imaginar que isso seria visto também no resultado final de Hemisférios. Como aconteceu essa adesão de novos membros e como isso impactou no novo trabalho?

Victor: A gente simplesmente percebeu um dia que talvez fosse o momento de experimentar tocar com uma banda cheia, de formação convencional. Você vê, apesar de desde o começo seguirmos essa vibe acústica, calcada mais nas harmonias vocais, nunca foi nossa intenção seguir assim pra sempre. A gente meio que sabia que esse aspecto sempre estaria carimbado em qualquer coisa que viéssemos a fazer, mas também sabíamos que uma hora iria chegar esse momento de tocar com banda. Às vezes faz falta tocar uma guitarrinha, e uma cozinha com baixo e bateria abre um outro mundo pra gente explorar. Tem sido muito bom e muito interessante manter os dois formatos, duo e quarteto, a música ganha demais com isso.

Elisa: Quando começamos a gravar esse disco, já tínhamos a ideia de tocar ao vivo com banda cheia, mas ainda não tínhamos fechado uma formação. Então, no disco gravamos por nós mesmos, e convidamos o nosso amigo Marlon Marinho para fazer as baterias. Nossa ideia ao vivo não é reproduzir literalmente o que está no disco – apesar de não fugir muito do que está lá –, mas transmitir nossa “vibinha”, que está no disco, de uma maneira menos introspectiva do que em dupla.

TMDQA: Algo muito curioso sobre esse novo álbum são as presenças de faixas mais intensamente instrumentais, com algumas até inteiramente sem vocais. Como foi compor essas músicas e como surgiu a decisão de incluí-las em Hemisférios?

Elisa: Todas as nossas referências mais fortes têm momentos importantes instrumentais, então para nós foi uma decisão natural.

Victor: Gravar coisas instrumentais sempre foi um desejo muito grande. Pro Hemisférios separamos duas faixas assim, “Lunação” e “Cenário”. A primeira é uma composição que veio da Elisa, a gente foi destrinchando a coisa toda e no fim das contas ficou com esse ar de pós punk. Até abraçamos a ideia de usar um sample de Cocteau Twins pra fazer a batida. Essa foi uma das que mais gostei de fazer. “Cenário” veio de um riff que fiz na viola e que acabou ganhando uma cara interessante, acho que se transformou num som emotivo, e ficou legal pra dividir a tracklist do álbum. Apesar de darmos bastante atenção às letras, de modo geral o instrumental desse disco ficou bem rico. Tem muitos climas nele.

TMDQA: E para finalizarmos, como a banda está se sentindo em sair de sua zona de conforto, experimentando outras sonoridades e tocando agora com instrumentos elétricos e outros membros em suas apresentações? Falem-nos sobre essa experiência que o novo álbum está proporcionando para vocês. 

Elisa: Nós sentimos essa vontade de experimentar banda cheia, mas nós mesmos não sabíamos direito como iríamos soar… Uma preocupação que tínhamos era chegar num som que não ‘engolisse’ a personalidade de nenhum dos dois, que mantivesse o equilíbrio que sempre primamos – somos uma mina e um cara tocando e compondo, lado a lado, em igualdade. E isso para nós reflete no nosso som. Um dos receios em tocar com banda era que poderia ‘desequilibrar’ o som, por exemplo pendendo muito pras referências do Victor, soando mais masculino, ou para as minhas. Olha as noias (risos) Fizemos alguns shows com formações diferentes até que a vida fez esbarrarmos com a Ana e o Rafa, que estão fazendo nossa ‘cozinha’ ao vivo atualmente. Junto com eles, estamos cada vez mais lapidados na nossa versão banda, descobrindo e criando a nossa cara elétrica para os shows ao vivo

Victor: Esse período todo de composição, gravação e ensaios tem sido o mais intenso do Antiprisma. Sinceramente, é um grande alívio poder criar de outras maneiras, se expressar de outras maneiras. A gente se sente bem à vontade no Antiprisma, e acho que apesar de termos mudado bastante em alguns aspectos, nossa cara está lá com certeza. E mesmo diferente, tem uma boa parte do disco que tem o jeitão do EP ou do Planos Para Esta Encarnação. Acho que esse trampo novo nos deu ainda mais a capacidade de ver outras coisas em nós mesmos com outra perspectiva, e é muito louco que tocar ao vivo nessa abordagem elétrica faz parecer um “recomeço”pra gente.

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Foto: Elisa Moreira Oieno


Fonte: r7 Music