Jackson do Pandeiro era conhecido como o "rei do ritmo"

Jackson do Pandeiro era conhecido como o “rei do ritmo”
Reprodução/Disco

Neste sábado (31), o Brasil comemora 100 anos de Jackson do Pandeiro. O centenário de nascimento do forrozeiro paraibano motiva diversas homenagens.

A Sony Music, por exemplo, disponibilizou seis álbuns raros do artista em streaming.

No lançamento online da gravadora, estão o compacto duplo Nortista Quatrocentão (1958), um disco de 78 rpm (1959) e os LPs Jackson do Pandeiro É Sucesso (1967), O Dono do Forró (1971), Sina de Cigarra (1972) e Tem Mulher Tô Lá (1973).

Pandeiro atômico

Aquilo foi algo que o Brasil não conhecia. Um rapaz de seus 30 e poucos anos chegando assim das Alagoas como um susto, riscado no asfalto de Alagoa Grande tal qual rojão, algo com uma força cool invertida na persona matuta daquele homenzinho miúdo de chapéu malandro que nem Luiz Gonzaga, produzido com genialidade e estratégia em sua imagem de vaqueiro para representar um povo inteiro, conseguia entender. Seu nome era José, José Gomes Filho, que virou José Jack e, depois, Jack do Pandeiro para, então, ser Jackson do Pandeiro.

Jackson nasceu há cem anos, completados neste sábado, 31. Sua passagem por aqui, nem sempre lembrada com a mesma reverência dispensada ao congênere Luiz Gonzaga, tem mais de um motivo para ser lembrada.

Se Gonzaga vinha com a face do brasileiro caracterizado do sertão, universalizando uma cultura regional e colocando o Nordeste no mapa, Jackson era o tiozinho do bodega que havia em todas as esquinas no País, regionalizando o mundo e trazendo o mapa ao Nordeste.

Sem referências nem ídolos, não seguiu os passos de Gonzaga, o que poderia ter feito à época, preferindo fincar os pés no coco que viu sua mãe cantar desde a infância. “Cheguei à conclusão de que tudo é coco. Se não é coco, é samba”, falou em 1982, à TV Cultura. Antes de ser do pandeiro, Jackson era do fundo do barro do chão cantado por Gilberto Gil.

A força de Gonzagão decretou à própria revelia do artista uma monarquia absolutista que não admitia mais de um rei e deixaria um único herdeiro, Dominguinhos. Assim, o Rei do Baião ficaria mais forte do que o Rei do Ritmo e a pergunta é: seria Jackson maior sem a onipresença de Gonzaga? “Não tem essa coisa de Jackson e Luiz Gonzaga. Até porque Gonzaga estava desde 1948 na cena.

Mas Jackson chegou como um fenômeno. Nunca vi nada parecido. Ele chega ao Rio e vence o preconceito dos críticos elitistas que o aceitam como se fosse um jazzista, uma espécie de Charlie Parker da Paraíba”, diz o jornalista e escritor pernambucano José Teles.

O cantor Lenine, responsável pelo terceiro nascimento de Jackson em 1999, quando lançou Jack Soul Brasileiro (a segunda havia sido em 1972, com Gil gravando Chiclete com Banana), faz um paralelo dos dois. “Acho que Luiz Gonzaga talvez esteja mais fresco na memória das pessoas porque também teve aquela grande redescoberta pelo filho (Gonzaguinha), que gerou uma turnê pelo Brasil.

Mas ambos tiveram um determinado acaso em suas carreiras para depois serem redescobertos. Acho que a gente que trabalha com informação tem que reverberar a importância desses dois.”

Outra autoridade no assunto é Geraldo Azevedo. Ele vê Jackson ritmicamente ainda maior do que o contemporâneo. “Talvez Gonzaga seja mais popular, mas Jackson tinha mais diversidade de ritmos nas divisões. Até João Gilberto foi influenciado, se levarmos em conta a divisão do canto. Não à toa, Jackson ganhou a alcunha de Rei do Ritmo.”

A divisão rítmica, o ritmo. Muitos o apontam como o maior legado de Jackson, depois da postura de respeito que ritmos novos do Nordeste ganham com a gravação de Sebastiana. Teles diz que Jackson cantava tudo como se fosse frevo. “É a minha teoria.” Lenine só vê uma comparação com os estilhaços rítmicos verbais, feitos com um impulso frenético e arrebatador. “Ele inventou uma maneira de dividir com a voz, ao interpretar as canções, que não teve paralelo. Talvez Miltinho tenha chegado mais perto nessa característica.”

Forró em Limoeiro, de Edgar Ferreira, em 1953; O Canto da Ema, de João do Vale, Ayres Viana e Alventino Cavalcanti, em 1956; Chiclete com Banana, da parceira de anos Almira Castilho e Gordurinha, em 1959. Com um poder de comunicação agigantado pela imagem lépida e peralta, um humor que se fazia sem rir e uma presença de cena horizontalizada ao nível de sua plateia, Jackson deu as cores que faltavam a uma terra que ajudou a descobrir.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.


Fonte: r7 Music