Quantas pessoas você tem adicionadas em seu Facebook? Quantas pessoas curtem suas fotos no Instagram ou republicam seus posts no Twitter? Quanto mais, melhor, certo?

Pode parecer ‘papo de tio’, mas não podemos esquecer de nossas conexões humanas. Curta fotos e troque mensagens, mas também marque de sair e abrace quem você considera importante.

Por que estamos falando isso? Porque no mundo da música as relações mais saudáveis se dão cara-a-cara. Você, enquanto artista, pode ter milhões de seguidores, mas precisa levá-los para o calor do show. Há não tanto tempo atrás, as pessoas faziam contatos, pasmem, pessoalmente. Logo, falem! Olhem no olho. É desse tipo de contato que um artista realmente precisa.

Um ótimo exemplo disso pertence ao Brasil. É o conhecido baixista Melvin Ribeiro. Em uma era ainda sem redes sociais, ele fez seus contatos, se tornou conhecido na cena, viajou pelo país e fora dele e acumula mais de 1000 apresentações ao vivo.

 

‘Estrada – Mil Shows do Melvin’ disponível para compra
Melvin, carioca nascido em 1978, começou sua carreira musical aos 14 anos e nunca mais parou. Sua trajetória já passou por vários grupos, desde projetos principais como as bandas Carbona e Melvin & Os Inoxidáveis até shows em bandas como Los Hermanos e Autoramas.

Ele conta esses muitos (muitos mesmo) outros momentos em seu livro ‘Estrada – Mil Shows do Melvin‘. Lançado este ano em comemoração ao seu milésimo show, a obra é contada em primeira pessoa pelo baixista, que fala não apenas sobre sua trajetória profissional como também sobre o aprendizado que a vivência o proporcionou.

No mais, o livro pode servir como uma grande inspiração para aqueles que querem viver da música. Ele dá detalhes sobre o calor e a intensidade de se viver em turnês, sobre a correria de buscar locais para tocar e sobre a impagável sensação de ser ovacionado pelo público. E tudo isso em um tempo sem redes sociais, onde o contato olho-no-olho o proporcionou incríveis parcerias.

Conversamos com Melvin sobre o livro e sobre as transformações sociais que a tecnologia causou. Aliás, ninguém melhor para falar sobre essa vivência do que um determinado músico que já fez mais de 1000 shows (e contando)!

Confira abaixo a entrevista:

Capa de "Estrada - Mil Shows do Melvin"

Capa de “Estrada – Mil Shows do Melvin”
Tenho Mais Discos Que Amigos

Foto: Divulgação

TMDQA!: Sua história serve de exemplo para muitos músicos. Nos seis primeiros meses de Carbona, por exemplo, você já havia se apresentado nos Estados Unidos. Analisando hoje tudo que aconteceu, a que você acha que se deu esse crescimento e a que você acha que se deu essa potencialização da música underground?

Melvin: É um processo longo. Naquele momento lá atrás, era um reflexo do Nirvana. Foi o momento em que todo esse movimento ficou escancarado. De lá para cá, a própria indústria mudou muito. Passou a se depender menos das gravadoras para aparecer e surgiram mais tecnologias para se gravar sozinho. Então, aquela barreira que tinha, de uma banda independente aparecer menos do que uma de gravadora, meio que foi acabando. Vivemos uma grande mistura. As pessoas meio que ganharam esse direito a escolher o que elas querem ouvir. Tudo chega hoje no mesmo lugar. A partir do momento em que você vê uma capinha no Spotify, não dá para saber se é de uma grande gravadora ou não. É uma trajetória muito louca.

TMDQA!: Eu acredito que, pensando nisso, as coisas tenham ficado mais fáceis, se comparadas ao corre que existia antigamente. Vejo isso refletido na ideia de você ganhando a vida em várias bandas e conhecendo a galera toda. Como é, para você, essa sensação de ‘onipresença’ em uma cena musical?

Melvin: É engraçado porque, de uma certa forma, as coisas pareceram já estar lá quando tudo teve que acontecer. Eu nem tinha o Carbona e já tinha essa fama de onipresente. Eu sempre fui muito afim de fazer as coisas. Mas às vezes não é só estar disponível. É querer muito. Eu gosto muito desse lugar que eu atingi. Além disso, eu gosto de tanta coisa diferente que é bom tocar coisas diferentes com pessoas diferentes. Não dava para eu ter apenas o Carbona na minha vida, apesar de ser uma das paradas que eu mais me orgulho de ter feito. É muito maneiro poder passear um pouco por outras realidades, seja uma banda de metal ou levando um som mais leve. São vários extremos que eu sempre ouvi e sempre quis viver um pouco. Sou muito feliz em ter virado essa pessoa.

 
‘É legal conhecer gente’

Melvin

Melvin
Tenho Mais Discos Que Amigos

Foto: Andre Olive

TMDQA!: Lendo o livro, dá para perceber que você fugia da sua zona de conforto. Lembro que você citou quando tocou em um apresentação de covers de Kiss em que você não conhecia todas as músicas do repertório. Você foi tirando as músicas na hora. É realmente algo inspirador.

Melvin: Inclusive, eu mesmo me surpreendo com essa história do Kiss. Foi o meu quinto show, e foi muita cara de pau da minha parte. Mas, não levando arrependimentos nessa vida, as únicas vezes em que eu dei mole foram as vezes em que não topei umas loucuras. Isso, com certeza, levaria as coisas para um outro lado. Obviamente foram poucos momentos. Se tenho uma dica para deixar para quem quer uma trajetória do gênero, apesar de ser uma coisa louca para se querer, é esse lance de cair dentro, sem preguiça. Se estiver com preguiça, é só lembrar do quanto você gosta da parada e do quanto pode ser legal fazer algo diferente. É legal conhecer gente, ter outras abordagens de música e perceber como as outras pessoas trabalham com música.

TMDQA!: Sem falar que isso da troca com outros músicos é algo muito benéfico. Como você falou, isso te ajudou a crescer e fez com que, hoje em dia, você se tornasse uma espécie de especialista em vários tipos de música.

Melvin: Tem um lado que você aprende só no palco. Sonhar com aquilo e estudar a teoria é muito bom, mas tem coisa que só acontece ao vivo. Eu dei muita sorte porque cresci em meio a uma galera de banda. A gente tinha a mania de se juntar e trocar músicas. O contato de tocar música com uma pessoa é ótimo. Eu não sei como é mais hoje em dia, mas não vejo tantas outras bandas com essa prática.

Às vezes eu tenho a impressão de que, hoje em dia, a galera tem menos vontade de sair de casa para ver qual é, e digo isso em relação a tudo, inclusive para tocar. Como hoje o mundo é o limite, as pessoas podem se sentir desencorajadas em fazer show para 50 pessoas porque querem mesmo é fazer para 50 mil. Acho que todo mundo vai perdendo com isso. As pessoas estão saindo bem menos. Está todo mundo mais Netflix e Tinder.

TMDQA!: A coisa do ao vivo tem uma atmosfera única. É algo insubstituível.

Melvin: Apesar de achar que as coisas estão diferentes, eu sei que procurando a gente ainda consegue achar esses momentos que vivi nesses tempos todos, de ir para lugares diferentes e conhecer gente nova. Ainda mais agora, que o Carbona já tem 20 anos, todo mundo que tocava com a gente já está decrépito (risos). Se você não conhecer uma galera nova, você não consegue renovar o seu espírito para a parada. Hoje em dia a gente está interagindo com outra galera. É muito legal essa mudança.

 
‘Precisamos usar as vantagens da época a nosso favor’

TMDQA!: Você estava falando dessa mudança de comportamento social. No livro, você detalha ‘sentimentos que estão prestes a desaparecer’. Eu acho que isso tem muito a ver com o advento da internet e das redes sociais. O que você acha que isso significa mais para a cena? É benéfico de alguma forma, por causa da troca maior que as redes permitem? É prejudicial?

Melvin: Eu acho que todas as épocas têm seus prós e contras. Precisamos usar as vantagens da época a nosso favor. Está mais fácil de viajar por aí e montar turnês. Facebook e Google podem ajudar muito uma banda a encontrar lugares para tocar. O Carbona não teve isso, por exemplo.

TMDQA!: O início do Carbona não pegou a revolução das redes sociais que, de certa forma, ajudam bastante na divulgação de uma banda hoje em dia. Você acha que hoje, de alguma maneira, é mais fácil para um artista conseguir uma base de fãs do zero?

Melvin: Esse início é sempre complicado. Pelas redes sociais, a gente consegue montar uma base, mas acho que é preciso ter em mente que todo mundo tem redes sociais. Se você não inventar uma estratégia diferente, você vai virar apenas mais um na multidão. Fazer um evento e esperar que todo mundo compareça é difícil, já que os próprios algoritmos impedem que todos vejam que existe o evento. Você precisa saber que, apesar de ter uma boa ferramenta em mãos, não dá para se destacar fazendo apenas o básico. É preciso pensar alguma maneira de levar isso além.

TMDQA!: Várias casas dedicadas à música aqui no Rio de Janeiro estão fechando. Levando em conta esse contexto, você acha que hoje é mais difícil conseguir um show do que nos anos 90 ou 2000?

Melvin: Cara, talvez. Tinha um pouquinho mais de lugar antigamente. Tem que tentar procurar mais. Nem sempre é fácil tocar perto de casa. Você tem que ir aonde há oportunidade. Sempre é possível dar um jeito. Acho que hoje em dia tem o lado positivo de ter, nesses lugares menores, a possibilidade de tirar um som muito bom. Eu acho que tem essa vantagem, mas tem essa questão de não conseguir tirar as pessoas de casa no geral. Está muito mais fácil fazer show em um festival gigante do que fazer um show pequeno. Isso está soando menos convidativo para o público.

 
‘Tomara que esse livro sirva de inspiração para que as pessoas realmente se mexam mais (…)’

Melvin

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Tenho Mais Discos Que Amigos

Foto: Andre Olive